sexta-feira, 4 de março de 2011

Monstro de Guaianases

Nome Completo: Benedito Moreira de Carvalho
Sexo: Masculino
Data de Nascimento: 10 de agosto de 1908
Local de Nascimento: Tambaú - SP
Número de vítimas: 11 +
Motivo: Sexual
Data da Morte: 1976
Como morreu: enfarto no refeitório do manicômio judiciário

História

Benedito Moreira de Carvalho nasceu em 10 de agosto de 1908, em Tambaú, São Paulo. Sua mãe morreu ao dar à luz Benedito, seu 12º filho. Queixava-se de crueldades sofridas na infância pelas mãos de seu pai, que o surrava frequentemente com argola de “rabo de tatu”, um pequeno chicote feito de couro trançado. Também usava cabo de vassoura ou qualquer tipo de pau, sempre na cabeça, produzindo-lhe perturbações, tonteiras, náuseas e desmaios. Tinha pelo pai um misto de estima e ódio, mas se relacionava muito bem com a irmã que o criara.
Dizia ter sofrido uma infância de privações em seu lar. Já na adolescência ocupou-se de tarefas agrícolas nas propriedades em que nasceu e morou.
Saiu de casa aos 16 anos, quando se instalou em Araçatuba. Ali trabalhou como carreiro (condutor de carro de boi), garçom e lavador de pratos.
Contraiu várias doenças venéreas, entre elas gonorreia, cancro venéreo e adenite inguinal.
Em 1928, aos 20 anos, “sentou praça” na Força Pública como bombeiro, mas foi expulso por incapacidade moral em 31 de junho de 1936, depois de seu primeiro crime sexual. Nesse crime já se manifestavam os primeiros sinais de sadismo: atacou a menor Maria num lugar ermo, no bairro Cerâmica, e, submetendo-a com violência, tentou esganá-la. O estupro não foi consumado porque Benedito ejaculou antes, mas o fato chegou aos ouvidos de seu comandante e ele o excluiu da Força Pública. Condenado a um ano de reclusão, cumpriu a pena e passou a ser serrador.
Em setembro de 1941, no bairro da Penha, cometeu um atentado violento ao pudor. Foi condenado a dois anos e 11 meses de prisão.
No ano de 1943, por causa de um acidente de trabalho, perdeu as duas primeiras falanges do dedo indicador da mão esquerda.
Em julho de 1946, no atentado que ficou conhecido como “Crime da Estrada da Peninha”, agarrou a menor Naomi, de 16 anos. Ela resistiu e Benedito esganou-a, arrastou-a para o mato e a estuprou. Quando foi preso, identificou-se com nome falso, Joaquim Moreira de Carvalho. Foi condenado a seis anos de reclusão, pena depois reduzida pelo Tribunal de Justiça para três anos e seis meses de prisão. Saiu em liberdade condicional em dezembro de 1949.
Em 25 de janeiro de 1951, Judith sofreu tentativa de estupro por Benedito, em Poá. No primeiro dia de agosto de 1951 ele tentou estuprar as irmãs Dalila e Berenice e violentou a menina Sulamita, todas menores de idade. Em 18 de agosto de 1951, novamente em Poá, atacou a menina Dina, 13 anos. Arrastou-a para o mato, mas o estupro foi interrompido antes de ser consumado pela chegada de um rapaz ao local.
No dia 6 de setembro de 1951 Benedito foi preso em flagrante quando invadiu a casa de Edna em Itaquera do Campo. Benedito utilizou um cinto para apertar seu pescoço, mas a menina conseguiu gritar. Assustado, ele fugiu, mas foi perseguido e preso por populares. Por meio de um habeas corpus, alcançou a liberdade em novembro de 1951.
Menos de um mês depois, em 21 de dezembro, ainda estuprou Lidia, em São Bernardo do Campo.
No ano de 1952, iniciou-se a série de homicídios cometidos por Benedito Moreira de Carvalho, que até então se comportava como um estuprador.

As Investigações e a Prisão de Benedito

Entre dezembro de 1950 e novembro de 1953, a polícia de São Paulo constatou um surto de sadismo e crimes sexuais. Eles chegavam a acontecer até duas vezes por semana, índice extremamente alto para a época. A polícia estava bastante perdida nas investigações.
Na semana santa de 1952, Gertrudes Dunzinger foi assassinada. A polícia logo foi chamada ao local do crime. O investigador de polícia Adalberto João Kurt, que atendeu ao chamado, quase morreu de susto quando um velho que afirmava ter visto um homem seguindo Gertrudes começou a gritar inesperadamente, apontando para ele. O assassino não era Kurt, mas era a cara dele! Essa foi a primeira pista da polícia sobre a aparência do homem que procuravam.
Os investigadores responsáveis pelo caso de Gertrudes começaram então a juntar o depoimento de testemunhas de outros crimes, que aparentemente, não tinham conexão.
Com espanto, perceberam que de fato, em todos eles, era descrito um individuo forte, sempre carregando uma pasta de couro marrom embaixo do braço, aloirado, parecido com o investigador Kurt em altura e fisionomia. As descrições das testemunhas também apontavam um homem que usava bigode pequeno e bem aparado e, muitas vezes, um chapéu cinza com a aba abaixada, que escondia parcialmente o rosto.
Suas vítimas eram frequentemente encontradas de forma parecida; o modus operandi em todos os crimes parecia ser semelhante. A polícia só podia concluir que um tarado estava à solta na cidade.
A sequencia de crimes sexuais entre 1951 e 1952 em São Paulo indicava que o criminoso tinha larga experiência nessa área e uma boa probabilidade de anterior passagem pela polícia
Iniciou-se uma investigação detalhada nos arquivos da Delegacia de Costumes, na Penitenciária do Estado, na Casa de Detenção e nas delegacias distritais em geral, utilizando-se listas de criminosos sexuais postos em liberdade condicional ou que já tivessem concluído sentença. Até arquivos de jornais foram pesquisados.
Desse imenso trabalho, resultou uma lista de nomes de possíveis suspeitos, que iam sendo estudados pacientemente e eliminados por exclusão, fosse por sua aparência ou por seu modus operandi.
Ao examinarem os arquivos da delegacia da 10ª Circunscrição, Distrito da Penha, depararam-se com a ficha de Benedito Moreira de Carvalho. Ao examinar as fotos, sua aparência logo chamou a atenção dos policiais... O homem aloirado era parecidíssimo com o investigador Kurt!
Verificou-se em seu prontuário que já cumprira pena por estupro na Penitenciária do Estado e respondia simultaneamente a dois processos por crimes sexuais: duplo atentado cometido no município de Poá, que naquela época ainda pertencia a Mogi das Cruzes, e outro contra uma jovem japonesa em São Paulo.
A leitura dos relatórios policiais indicava que o modo de agir de Benedito assemelhava-se bastante aos dos casos sem solução que estavam sendo apurados. Iniciaram-se rigorosas investigações em torno dele.
Logo descobriram que ele havia fugido da cadeia de Mogi das Cruzes em agosto de 1951 e que, no mesmo dia, praticara um estupro e uma tentativa de estupro em Itaquera.
O suspeito utilizava-se de vários nomes: Joaquim Moreira de Carvalho, Benedito Moura de Carvalho e José Carvalho.
Nesse momento das investigações, aconteceu mais um estupro com morte: Ruth, em 18 de agosto de 1952.
A polícia, ao chegar ao local do crime e entrevistar testemunhas, obteve informações que assinalavam a presença de homem aloirado, magro, com altura por volta de 1,70 metros, chapéu de aba abaixada e pasta de couro na mão. Essa descrição batia com a de Benedito. Imediatamente saíram atrás dele.
Descobriram que Benedito era profissional de serrarias. Os investigadores Mário Gonçalves, Athos Tescarollo, Antonio Belli e Alcides de Oliveira, orientados pelo delegado Francisco Petrarca Iello, levantaram os endereços de todas as serrarias de São Paulo e assinalaram os diversos empregos do criminoso num mapa. Verificaram todas as folhas de frequência, cartões e livros de ponto desses locais. Sem exceção, Benedito havia faltado ao trabalho ou estado desempregado nas datas dos crimes, que sempre ocorriam próximos das serrarias. Não havia mais dúvidas de que Benedito Moreira de Carvalho era o autor dos crimes que estavam sendo investigados.
A tarefa de localizar o suspeito não foi nada fácil. Ele dava endereços falsos de sua residência em todos os empregos e até mesmo em seu sindicato, o que constituía mais uma indicação de que se tratava de alguém que tinha o que esconder. Finalmente chegaram ao endereço correto: rua Ponciano 32, Guaiaúna, São Paulo.
Em 29 de agosto de 1952, a equipe de investigação da polícia de São Paulo, vestida com macacões e trajes de operários, estacionou um caminhão em frente à casa de Benedito. Eram duas horas da madrugada e todos fingiram estar consertando o “caminhão quebrado”.
Por volta de 4h30min daquela manhã, Benedito Moreira de Carvalho saiu de casa com cautela, depois de examinar as imediações, como se soubesse que algo estava errado. Levava na mão uma pasta de couro marrom.
Os investigadores deram-lhe imediatamente voz de prisão. Ele não reagiu. Ao examinarem o conteúdo de sua pasta, constataram que só carregava um cordel com uma laçada em uma das extremidades. O achado era evidência importante, pois duas das vítimas haviam sido estranguladas com material semelhante.
Benedito Moreira de Carvalho foi detido e interrogado.

Alguns Crimes

Ao ser preso, Benedito confessou dez de seus estupros, oito deles seguidos de homicídio.

Caso da Vila Diadema
Data: 26 de fevereiro de 1952
Vítima: Tamara
Idade: menor
Crime: estupro e homicídio

Benedito pegou o ônibus de manhã para procurar emprego numa serraria. Desceu na Vila Conceição e começou a seguir a pé. Andou uns 7 ou 8 quilômetros, mas não encontrou o local que procurava. Começou então a voltar pela mesma estrada. Já passava das treze horas quando ele avistou uma mocinha caminhando a sua frente. Apressou o passo, tomou a dianteira e, depois de 50 metros, começou a andar de volta em sua direção. Ao cruzar com a moça, parou e a convidou para entrar no mato. Ela o repeliu. Diante dessa atitude, apertou-lhe o pescoço e arrastou-a para dentro do mato. Segundo seu relato, “a moça gritou um pouco”. Quando percebeu que sua vítima recobrava os sentidos, repetiu-lhe a mesma proposta e mais uma vez foi repelido por ela. Com raiva, esganou-a e a estuprou. Deixou o local achando que Tamara ainda

Caso de Parelheiros
Data: 7 de abril de1952
Vítima: Gertrudes Dunzinger
Idade: 29 anos
Crime: estupro e homicídio

Benedito tomou o ônibus para Santo Amaro às oito horas da manhã no parque Anhangabaú. Chegando lá, depois de pouco tempo, tomou outro ônibus para Parelheiros. Ao passar por perto de uma escola, perguntou ao motorista se ali era o “Casa Grande” e desceu. Andou por uma estrada secundária e passou por outra escola. Já na volta, em frente a uma granja de japoneses, viu uma moça loira que parecia ser estrangeira. Subiu num barranco, esperou que ela passasse e começou a segui-la. Aproximou-se e propôs a mulher que entrasse com ele no mato. Repelido, continuou a segui-la até passar por uma segunda porteira. Dessa vez, segurou-a pelo braço. Ela gritou. Imediatamente tapou-lhe a boca com a mão e apertou-lhe o pescoço com uma cordinha. Arrastou-a para a margem direita do caminho, entrando com ela numa picada, para em seguida estupra-la.
A mulher levava uma sacola com pão, maçãs, pequenos embrulhos e uma lata. Benedito comeu as maçãs e voltou pelo mesmo caminho. Viu um velhote que já havia cruzado seu caminho na ida. Cumprimentou-o e foi embora. Dois ônibus depois estava de volta a praça João Mendes.

Caso da estrada da Juta
Data: 26 de maio de 1952
Vítima: Ester
Idade: 12 anos
Crime: estupro e homicídio

Logo cedo, Benedito tomou o ônibus para a Vila Carrão e depois para São Mateus. Em seguida, pegou carona com destino a Santo André. Nas proximidades de uma fazenda, pediu ao motorista que parasse e desceu. Voltou então um trecho do caminho a pé e numa baixada encontrou uma japonesinha que levava uma pasta escolar. Avançou sobre ela, apertou-lhe o pescoço, esganando-a, e depois de transpor uma cerca de arame farpado arrastou a menina desfalecida para o matagal existente a margem da estrada. Estuprou-a, usando vaselina de uma latinha que levava com ele. Depois cobriu o cadáver com as roupas dela e voltou à estrada, indo a pé para São Mateus. Foi para casa.

Caso de Cumbica
Data: 28 de maio de 1952
Vítima: Maria de Lourdes Alves
Idade: 18 anos
Crime: tentativa de estupro

Logo cedo, às seis horas da manhã, Benedito foi de ônibus primeiramente para Guarulhos e em seguida para Cumbica. Numa parada, pouco antes da Base Aérea, viu uma jovem acompanhando um menor até o ônibus. Notando que ela ficara só, na estrada, e que o lugar era adequado para os seus planos, desembarcou e seguiu a moça pelo atalho em que ela caminhava, à direita da estrada. Após uns 200 metros, puxou conversa e perguntou se Maria de Lourdes era moradora dali. Ela disse que sim. Pouco adiante, Benedito propôs manterem relações sexuais. Repelido, agarrou-a pelo pescoço e arrastou-a para uma capoeira à margem do atalho. Não chegou a consumar o ato sexual. Perdeu o desejo ao perceber que a moça tinha um corrimento malcheiroso. Deixou a jovem desfalecida e, depois de socar seu rosto, foi embora.

Caso de Barueri
Data: 20 de junho de 1952
Vítima: Rebeca
Idade: 12 anos
Crime: estupro

Benedito saiu de casa em direção a Barueri, onde esperava localizar uma curandeira indicada por um amigo. Caminhou a esmo e parou num bar para tomar leite. Depois esteve em uma olaria, perto da estrada de Parnaíba, de onde seguiu em direção a um morro. Do alto, viu uma japonesinha acompanhada de um menino, talvez seu irmão, que levava um litro na mão. Decidida a possuí-la, aproximou-se e tratou de afastar o menino, fazendo com que ele levasse um recado para um motorista de caminhão que estava na olaria próxima. Ele relutou, mas cedeu. Ao ficar só com a garota, Benedito acompanhou-a na direção em que ela ia. Pouco adiante entrou com ela no mato e mandou que ela se deitasse. Como ela não aceitou, Benedito lhe apertou o pescoço até que desfalecesse e caísse. Segundo seu depoimento, não consumou o estupro porque a menina estava menstruada. Disse ter apenas introduzido levemente o pênis na vagina dela. Deixou-a deitada, com vida, e foi embora.

Caso da Parada XV de Novembro
Data: 21 de julho de 1952
Vítima: Mercília Oliveira de Souza
Idade: 18 anos
Crime: estupro e homicídio

Depois de descer do trem, por volta das treze horas, Benedito esteve em um bar e, depois, “possuído de desejo sexual”, pegou um atalho. No fim do caminho, viu uma capela, na soleira da qual se sentou e descansou.
Recomeçou a caminhar até encontrar a casa que procurava, onde viu uma senhora e uma menina. Pediu um copo d’água e conversou algum tempo com a mais velha, perguntando sobre uns negros que ali moravam. Ela disse que a família tinha se mudado. Benedito resolveu regressar pelo mesmo caminho. Foi quando viu, a algumas centenas de metros adiante, uma menina morena de 18 anos levando ameixas nas mãos. Perdeu-a de vista por algum tempo, para depois reencontrá-la em um casebre mal acabado.
Cumprimentou-a, entrou pelo portão e da janela pediu-lhe que arranjasse algumas mudas de cana para ele. A moça respondeu que a cana-de-açúcar não era dela, mas se ofereceu para levá-lo a dona da plantação, que morava ali perto. Quando a moça, já do lado de fora, fechava a porta para acompanhá-lo, Benedito fez-lhe uma proposta sexual, que foi repelida prontamente. Agarrou seu pescoço, arrastou-a por alguns metros e pegou umas cordas que estavam no chão, estrangulando-a com elas. Arrastou a jovem pela corda, levou-a até um sapezal que ficava a uns 50 metros do casebre e estuprou-a enquanto estava desfalecida. Depois desapertou o nó e notou que sua vítima ainda vivia. Fugiu pelos fundos da chácara e foi para a estação de trem. Disse, em seu depoimento, que a moça gritou ao ser atacada.

Casos da Chácara Rudge Ramos
Data: 2 de agosto de 1952
Vítima: Raquel
Idade: 10 anos
Crime: estupro e homicídio

Vítima: Abraão
Idade: 8 anos
Crime: atentado violento ao pudor

Naquele sábado de 1952, Benedito já acordou com uma espécie de friagem, como um arrepio que não passava. Imediatamente veio o pensamento e a urgência de fazer sexo. Com a esposa era impraticável. Ela sofria de muitas enfermidades, o que tornava impossível ter relações sexuais sempre que desejava. O problema era o quanto queria; na verdade não parava de querer. Já havia procurado um médico e vários curandeiros, mas nenhum remédio ou chá diminuíra sua virilidade. Nada fazia seu impulso sexual desaparecer.
Naquela madrugada, Benedito se vestiu no escuro para não acordar a esposa. Colocou o chapéu, abaixou a aba para que seu rosto não fosse visto facilmente, pegou sua pasta e saiu.
Ao sair, tranquilizou-se com o fato de ainda estar escuro. Não levantaria suspeita; a cidade ainda dormia. Seguiu a pé até o parque D. Pedro II, pensando no rumo que tomaria para encontrar um local apropriado para agir. Decidiu-se pelo ônibus amarelo da linha São João Clímaco.
Depois de um tempo, ao olhar pela janela, percebeu que já estava na altura do posto da Guarda Civil que ficava no começo da via Anchieta. Desceu imediatamente do ônibus. Aquele local era ermo o suficiente para que pudesse agir, mas não tanto que o impedisse de encontrar uma presa. Os arrepios e friagens continuavam.
Benedito foi caminhando pela estrada, olhos apertados de caçador tentando avistar uma caça. Viu, a sua direita, a placa de entrada da chácara Rudge Ramos. Sabia que ali existia um lago e muitas casas de japoneses. Ele adorava meninas japonesas.
Andou alguns metros, atravessou um mata-burro, passou por diversas casas. Ao longe, vindo em sua direção, Raquel, 10 anos de idade. A japonesinha era pequena e devia estar indo para a escola, já que carregava uma pasta, que Benedito certamente levaria como lembrança, se fosse possível.
Ele preferia mulheres, mas, quando se sentia como naquele dia, nada importava. Nem pensava no sofrimento da menina, só em ter relações sexuais com ela.
Quando Raquel passou por ele, agarrou-a com rapidez pelo pescoço. Tirou uma cordinha da mala, já com a laçada pronta, e constringiu o pescoço da menina até que ela desmaiasse.
Benedito arrastou Raquel para o mato que cercava a estrada. Tirou as roupas da criança e tentou penetrá-la com seu membro. Não conseguiu. A vagina era pequena demais, e ele avantajado. Na pressa de satisfazer-se, cuspiu na própria mão e umedeceu o sexo da menina. Mesmo assim, precisou de muito esforço. Finalmente ejaculou, mas o alívio tão esperado não veio. Benedito então a penetrou mais uma vez. Ao terminar, olhou para a garotinha desfalecida. Examinou sua fisionomia com atenção e verificou sua pulsação. Estava viva. Recolheu as roupas de Raquel e a cobriu com elas. Raquel morreu posteriormente em decorrência dos ferimentos causados por Benedito em seu ataque brutal.
Benedito saiu sem olhar para trás, ainda inquieto, insatisfeito. Apanhou alguns ramos de cambuci e erva-de-bicho para fazer um chá quando chegasse em casa. Ainda sentia arrepios.
Ao voltar pela estrada, viu um menino brincando com uma garrafa e um carrinho. Imediatamente as pulsações voltaram; o desejo cresceu de forma insuportável.
Benedito chamou o garotinho e perguntou seu nome. Ele respondeu que era Abraão, e que tinha 8 anos. Tentando ganhar sua simpatia, Benedito lhe disse que conhecia seu pai. O menino sorriu, envergonhado, segurando com força seus brinquedos. Benedito então propôs ao garoto que o acompanhasse por um atalho em troca de algum dinheiro. Sem perceber suas reais intenções, ele concordou. Naquela idade, jamais passaria pela cabeça da criança que aquele homem bem vestido lhe faria algum mal.
Abraão e Benedito entraram pelo atalho e cruzaram uma porteira de arame farpado, alcançando o mato. Ao ver-se sozinho, sem enxergar mais a estrada, o menino teve medo. Largou os brinquedos no chão e tentou sair correndo. Não teve tempo. Benedito agarrou-o pelo pescoço até que desfalecesse. Deitou-o no chão, arrancou suas roupas e o sodomizou.
Depois de verificar se o menino ainda estava vivo, Benedito jogou longe os brinquedos para dificultar sua localização. Apressadamente voltou à via Anchieta e pegou um ônibus de São Bernardo do Campo para o parque Dom Pedro II. Ainda eram nove horas da manhã, e ele falaria para a esposa que não havia conseguido trabalho naquele dia.

Caso de Itaquaquecetuba
Data: 18 de agosto de 1952
Vítima: Ruth
Idade: 10 anos
Crime: estupro e homicídio

Naquele dia Benedito desceu do trem na estação de Aracaré às nove horas da manhã. Andou por um atalho e foi sair no Rancho Grande, onde tomou guaraná e permaneceu por algum tempo. Voltou para pegar o trem, mas, como ele ainda ia demorar, resolveu voltar ao Rancho Grande e pegar um ônibus. No caminho, num ponto íngreme da estrada, encontrou uma menina negra, Ruth.
Ao cruzar com ela, convidou-a para acompanhá-lo ao mato. Não percebendo suas intenções, Ruth acompanhou-o até a margem da capoeira. Ali, Benedito agarrou-a pelo pescoço e a arrastou, desfalecida, mato adentro. Depois de estuprá-la, deixou-a recostada em uma árvore, à sombra, ainda com sinais de vida, coberta com suas roupas e fugiu.

Caso do Sítio Invernada
Data: 21 de agosto de 1952
Vítima: Miriam
Idade: 15 anos
Crime: estupro e homicídio

Benedito foi para Cumbica, onde iria encontrar o amigo Albino, alistado na Força Aérea. Ao chegar ali, soube que o amigo havia sido expulso da unidade. Pegou carona num caminhão e desceu a 2 quilômetros do Sítio Invernada, no Barreiro. Seguiu a pé pela estrada até o tal lugar e cruzou com várias pessoas pelo caminho. Viu então uma mocinha tirando água de um poço na margem esquerda da estrada. Aproximou-se e verificou que era japonesa. Puxou conversa. Perguntou se alguém de sua família estava em casa. Miriam respondeu que não, que estavam todos na roça. Então Benedito agarrou-a pelo pescoço, mas dessa vez não seria tão fácil, porque a resistência foi grande e os dois lutaram até que ela fosse subjugada. Miriam foi derrubada e feriu o rosto em consequência da queda. Em seguida, Benedito apertou-lhe o pescoço e arrastou-a para o matagal. Colocou-a no chão, desfalecida, e estuprou-a. Não despiu inteiramente a moça. Fugiu.

Trabalhos Policiais

A polícia conseguiu um mandado de busca para investigar a casa de Benedito. As seguintes evidências foram encontradas:

Três pastas de couro;
Noticiário de seus crimes e outros em recortes de jornal;
Vários ternos;
Chapéu cinza como o citado pelas testemunhas;
Livros de catecismo;
Imagem de Santa Izildinha;
Relação manuscrita a lápis, do próprio punho de Benedito, com várias anotações;

Benedito Moreira de Carvalho fazia um “livro-caixa” de seus crimes de morte. Os bairros eram marcados de acordo com suas próprias referências sobre o local, e não com os nomes conhecidos pela imprensa.
Segundo o próprio assassino, suas anotações tinham objetivo de prevenir-se no caso de ser responsabilizado por crimes sexuais que não tivesse cometido.
Benedito nunca confessou cópula anal e estrangulamento, ações suas comprovadas por exames médico-legais. Nas marcas de estrangulamento manual deixadas pelo “Monstro de Guaianases” no pescoço de suas vítimas, sempre faltava parte do dedo indicador da mão esquerda, que Benedito tinha perdido num acidente de trabalho.
O conteúdo de sua pasta também não deixou dúvidas sobre seus objetivos de uso do cordel com laçada.
Quando interrogado a respeito, ele afirmou que “aquela cordinha” era usada para fazer feixes de gravetos e cavacos que costumava levar para casa e utilizar no fogão. O problema foi que sua esposa negou categoricamente essa declaração, pois o fogão de sua casa era a carvão. De fato, aquele tipo de corda é usado em serrarias para amarrar caibros e ripas, mas as necropsias de Gertrudes Dunzinger e Raquel demonstravam que os sulcos encontrados no pescoço delas correspondiam com exatidão à espessura do cordel de Benedito.
A maior preocupação de Benedito era de que as pessoas não acreditassem que ele era doente. Não queria ser tratado como criminoso, queria ser internado em hospital psiquiátrico. Confessou que não conseguia dominar os ímpetos de violência quando estava excitado sexualmente.
Sobre as pastas de couro encontradas em sua casa, declarou que foram compradas por ele na Rua São Caetano, eram suas.
O caso do “Monstro de Guaianases” atraiu todas as atenções e causou grande comoção. Seus interrogatórios sobre cada delito em particular foram feitos publicamente, num salão da Secretária de Segurança Pública, e acompanhados durante dias e dias seguidos por uma multidão de curiosos. Os jornalistas interrogavam Benedito à vontade. Psiquiatras interessados no caso foram entrevistá-lo sem o menor constrangimento.
Passados 14 dias da primeira confissão, Benedito, diante das novas provas, confessou mais três crimes.
A pasta que ele disse ter comprado um ano antes por Cr$ 34,00 (trinta e quatro cruzeiros), na Rua São Caetano, provou-se custar bem mais do que isso. A etiqueta da mala levou os investigadores à fábrica, que estimou o preço de venda em pelo menos o dobro do que ele alegava ter pago.
Para resolver a dúvida, a polícia examinou outra vez todos os inquéritos de crimes sexuais para verificar se em algum caso havia sido assinalado o desaparecimento da mala da vítima. De fato no caso de Sarah (10), isso tinha acontecido.
Ela havia sido estuprada e gravemente ferida no mesmo dia em que a menina Ester fora estuprada e morta na Estrada da Juta, em Santo André.
Foram chamados para depor Sarah e seu pai, que reconheceram a pasta, entre outras quatro, com todas as formalidades e testemunhas.
A menina ainda indicou uma anotação feita a lápis que estaria escrita dentro da mala, provavelmente o preço em código. O pai da vítima conduziu a polícia à loja onde a havia comprado, e o vendedor a reconheceu entre outras, mostrando a anotação feita de próprio punho em seu interior.
Ao mesmo tempo, o criminoso confessou outros dois delitos por haver sido reconhecido por testemunhas: estupro de Deborah (11) em 5 de maio de 1952, na Vila Carrão, e de Lea (11) em 24 de junho de 1952, em Mauá.
Benedito fez o reconhecimento e a identificação de todos os locais dos crimes. Mostraram à polícia, com impressionante exatidão, os caminhos pelos quais chegava a eles, o ponto em que encontrara a vítima, a posição em que esta ficara, o caminho de volta, os lugares onde tinham ficado bolsas e outros objetos delas.
Indicava com extrema segurança clareiras, atalhos, estradas, casas, capões de mato, cercas – enfim todos os detalhes de cada crime cometido por ele. No Sítio Invernada, cena de seu último assassinato, reconheceu o local, apesar de a casa ter sido demolida e o aspecto geral do lugar ter mudado. No local em que matou Ester, Benedito não se confundiu nem mesmo com a profunda modificação produzida ali por recentes queimadas.
A menina Rebeca (12), apesar do inicial estado de choque em que ficara após o ataque de Benedito contra ela, sobreviveu e pôde depois identificar seu estuprador e colaborar com mais detalhes sobre seu comportamento.
A violência de seus crimes era tal que suas vítimas desmaiavam durante o ataque. Os exames de corpo delito das vítimas indicaram rompimento da vagina e ânus, lesões (escoriações, sulcos e equimoses) no pescoço e no rosto, constrição da garganta, socos na cabeça, escoriações na face interna das coxas e face anterior das pernas, morte da vítima por esganadura, estrangulamento ou sufocação, além de contusões e escoriações nos seios.
Benedito cometeu crimes contra 29 vítimas: dez estupros seguidos de homicídio, nove estupros, um atentado violento ao pudor, um atentado ao pudor, seis tentativas de estupro, uma tentativa de estupro e homicídio e um homicídio.
Vinte e duas de suas vítimas com idade conhecida eram menores de idade. Todas, sem exceção, foram atacadas durante o dia. Todos os locais de crime eram escondidos, ermos, outeiros cobertos de vegetação de pequeno porte, como capoeiras, clareiras ou capões de mato.
Ao ser interrogada, Marina Ferreira de Carvalho, esposa de Benedito, disse não ter queixas do marido. Parece que ao seu lado seus impulsos sexuais não eram nada doentios. Nunca notou qualquer anomalia ou perversão na conduta dele.
A senhora Carvalho declarou que Benedito era trabalhador e bom chefe de família, sustentando sozinho o lar. Nunca soube ao certo os motivos das prisões e condenações do marido. Sabia vagamente de que se tratava de “encrencas com moças”.

Vida depois de preso e morte

Benedito teve sua prisão preventiva decretada em 12 de setembro de 1952 e foi para o Manicômio Judiciário de São Paulo, hoje chamado Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico “Professor André Teixeira Lima” de Franco da Rocha, em 24 de outubro de 1952.
A conclusão de todos os laudos até sua morte era de que o paciente sofria de psicose e/ou pseudopsicopatia por lesão cerebral, sendo assim indivíduo de alta periculosidade.
Foi absolvido de seus crimes em razão da inimputabilidade e mantido o resto de seus dias internado no manicômio.
Segundo José Benedito Catalini, funcionário da instituição desde 1973, Benedito Moreira de Carvalho era autoritário, dominador, meticuloso e obediente. Era responsável pelo refeitório dos pacientes da seção B e chefe muito duro com os outros presos. A liderança dos internos não gostava do excesso de autoridade sempre utilizado por Benedito.
Em 1975, Catalani assistiu ao paciente Armindo Pereira Alves, da elite da malandragem na época, atentar contra a vida de Benedito com um canivete. A camisa branca abotoada de Benedito se abriu com as quatro ou cinco facadas que levou. Sua barriga foi cortada como a de um peixe ao ser limpo; tripas e fezes ficaram expostas, e Benedito, segurando o ventre, caminhou 20 metros até o consultório médico para buscar socorro. Hospitalizado durante algum tempo, recuperou-se totalmente.
Segundo Catalani, Benedito sempre teve receio de sair de sua unidade. Ele temia ser alvo de vingança por parte dos parentes de suas vítimas. Tinha mais medo ainda de qualquer paciente oriental.
Em 1976 sofreu um enfarte dentro da copa do refeitório. Como era um preso de confiança, a chave estava com ele, e a porta, trancada. Depois do arrombamento executado por funcionários, Benedito ainda recebeu socorro, mas não sobreviveu.
Sua esposa, Marina, foi retirar seus pertences, que se resumiam em uma carteira de couro sintético, uma carteira porta notas, uma caneta tinteiro, um par de óculos com estojo, dez maços de cigarros Parker, um relógio de pulso marca Diva, carteira de identidade, carteira do 2º Batalhão da Força Pública da 4ª Companhia, certidão de nascimento.
Isso foi o que restou do temido Monstro de Guaianases.

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